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Eram assim passadas as
noites em Lamosa. Depois da ceia, reuniam-se em algumas casas
(geralmente na loja, por baixo da residência) grupos de
mulheres e raparigas que fiavam o linho e a lã ou faziam
meias. Rezavam, conversavam e cantavam, passando o tempo em
convívio em cima da palha que forrava o chão.
No meio da roda estava a
candeia, cujo petróleo era comparticipado por cada mulher que
participava no serão.
Também para o meio da
roda procuravam ir alguns rapazes, que ali podiam ficar
deitados a apreciar as raparigas presentes, embora as mães
delas estivessem sempre de olhos bem abertos para o que se
passava. Ainda assim, muitos namoros nasceram nestes serões e
alguns beijos foram trocados nestas noites.


Cantar os Reis
A 6 de Janeiro, Dia de Reis, homens e mulheres juntavam-se
à tarde e iam de casa em casa cantar os Reis. Geralmente, o
grupo ia acompanhado pelo tocador e à porta de cada casa
decidiam qual a melhor rima que se adaptava ao nome dos
proprietários.
Estes contribuíam com batatas, cebolas, chouriços ou
salpicões, que eram leiloados ao final do dia à porta da
igreja. O lucro do leilão revertia a favor da igreja ou de
alguma obra em prol da comunidade.
Vimos dar as boas festas
Vós direis que já é tarde
Ninguém no-las deu mais cedo
No Amor e na Vontade
Quem diremos nós que viva
Na folhinha do papel (ou rapé / harmónio / jasmim)
Viva a Senhora Maria
E mais o Senhor Manuel (ou José / António / Joaquim)
Se nos querem dar os Reis
Não se esteja a demorar
Porque é noite, faz escuro
Temos muito para andar
Quem diremos nós que viva
No grãozinho do confeito
Viva a gente desta casa
Pois é gente de respeito
Vimos dar as boas festas
Reparai que dia é
São chegados os três Reis
A Jesus de Nazaré


Por altura da Quaresma,
as raparigas tinham por hábito "enganchar" com as
amigas. Entrelaçavam o dedo mindinho da mão de cada uma e
diziam em coro
- "Enganchar, enganchar
- Com chavinha chavar
- Quando te mandar rezar, reza
- Para Dia de Páscoa me dares do
teu folar"
A partir daí, cada
rapariga procurava ser a primeira a mandar a sua parceira
rezar, gritando-lhe "reza!". Este desafio gerava
verdadeiras sessões de emboscadas, com as raparigas a
procurarem o melhor esconderijo para surpreender a amiga
desprevenida e mandá-la rezar.
No Dia de Páscoa, a
rapariga que mais vezes tivesse conseguido mandar rezar a
parceira durante a Quaresma, tinha direito a uma porção do
folar da amiga.


Antes do Carnaval, os
rapazes juntavam-se de noite para "casar as
raparigas". Arranjavam dois funis e dividiam-se em dois
grupos. Um deles concentrava-se no alto da aldeia, junto ao
moinho de vento. O outro grupo partia em direcção à Portela
e concentrava-se junto ao barracão existente ali no meio dos
terrenos.
A distância entre os
dois grupos ainda era considerável, pelo que eles recorriam
aos funis para propagar o som e espalhar uma autêntica
gritaria pela aldeia, mantendo este diálogo:
- - "Está ali em baixo uma
menina a chorar".
- - "O que é que ela
quer?"
- - "Quer-se casar".
- - "Então quem é ela?"
- - "É a …"
- - "E que rapaz lhe havemos de
dar?"
- - "Há de ser o…"
Como esta cena se
passava à noite, nem todas as raparigas conseguiam escapar de
casa para ouvir o nome do rapaz que lhes tinha sido
atribuído. No dia seguinte, era certo que à saída da missa
todas queriam saber os nomes dos casais formados na véspera.
Para umas era uma alegria, para outras a desilusão.
Certo é que alguns
casamentos verdadeiros nasceram a partir de namoros criados
nos "casamentos" de Carnaval.


Era algo que acontecia
com frequência sempre que os rapazes mais novos tentavam
fazer "concorrência" aos mais velhos,
aproximando-se das raparigas nos serões.
Sempre que davam conta
que algum rapazito novo já andava por ali a rondar as
raparigas, os mais velhos uniam-se e corriam os mais novos
"à françada", batendo-lhes com giestas grandes
(franças) e com bastante violência.
Os rapazes mais novos
não tinham outro remédio senão correrem o mais depressa
possível para suas casas e esperar que o tempo passasse para
que eles passassem a pertencer ao grupo dos mais velhos.

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Depois de ceifado,
geralmente em Julho, o centeio era deixado nos campos em
pequenas medas os rolheiras até que fosse possível
transportá-lo no carro de vacas para as lajas. Era a chamada
carreta. Na laja, o centeio permanecia numa grande rolheira
até ao dia da malhada, geralmente organizada no final de
Julho ou no início de Agosto e reunindo boa parte da
família, vizinhos e amigos.
A malhada consistia em
separar o grão da espiga de centeio, para que mais tarde
fosse possível moer o grão. Em tempos mais antigos, esta
operação implicava o uso do mangual, que mais tarde foi
substituído pela malhadeira.
Cada participante na
malhada assumia uma função específica:
As coanheiras usavam o
engaço para o grão da palha que saltava da máquina.
O palheireiro estava
sempre em cima do palheiro para lhe dar o formato de cone. Era
o formato ideal para que a água da chuva escorresse para o
chão e não estragasse toda a palha.
O dono da malhadeira
ficava encarregue de introduzir a palha na máquina. Pela
cedência da malhadeira recebia uma "maquia", ou
seja, ficava com uma parte do grão.
O ajudante do dono da
malhadeira ia mudando a saca de centeio.
E os acartadores levavam
a palha para o palheiro.
Apesar da malhada ser
feita em pleno Verão, todos os participantes usavam roupa de
manga comprida porque as praganas (arestas de palha)
arranhavam os braços.
No topo dos palheiros
era costume fazer-se um entrelaçado com as espigas. Desse
palheiro ia sendo retirada alguma palha, sempre por baixo, que
era usada para forrar o chiqueiro dos porcos, a loja das vacas,
para encher os colchões das camas e para fazer os bancilhos,
aqueles grandes nagalhos que serviam para amarrar pequenos
molhos.
Nas malhadas havia
sempre alguém disponível para levar água e vinho para os
que estavam a participar na operação. Era também costume
que o dono da malhada oferecesse uma refeição em sua casa a
todos os que participavam. Só se a malhada fosse pequena é
que apenas se comia "de seco".
Quanto ao grão retirado
das espigas, esse era guardado em sacas e depois despejado
numa arca. Só então o grão era moído e transformado em
farinha.
Se o grão fosse moído
na mó alveira conseguia-se uma farinha mais grossa, com mais
farelo. Se o grão fosse moído na mó centieira saía uma
farinha com menos farelo. A farinha era usada para consumo da
família, enquanto o farelo ia para a vianda dos porcos e das
vacas.

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Era feita em Setembro. O
milho era cortado e transportado no carro das vacas para uma
laja. Depois era escanado, ou seja, eram retiradas as folhas
que cobriam a espiga de milho ou maçaroca.
As espigas eram
guardadas nas caniças durante a noite e eram espalhadas ao
sol durante o dia. Esta operação era repetida durante três
ou quatro dias.
Antigamente, a malhada
era feita com o mangual, batendo no milho para separar o grão
da espiga. Mais tarde, as malhadeiras vieram substituir o
mangual. A máquina era levada para a laja onde era
introduzido um cesto de maçaroca na malhadeira. Esta separava
o grão e o arolo.
O grão de milho era
depois deixado a secar durante vários dias. Depois era levado
em sacas para as arcas. Durante o ano era moído e mais tarde
misturado com farinha de centeio para fazer o pão. Por vezes,
a farinha era usada sem mistura para ser feita a broa de
milho.
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