10/10/2006 

 

ENTREVISTA AO PADRE ALBERTO

                                                                       “Lamosa está mais aberta” 

Nasceu a 1 de Agosto de 1955, em Lamosa, e é o mais novo de quatro irmãos. Alberto Silva é conhecido entre todos os lamosenses como o Padre Alberto e foi o primeiro sacerdote a ser ordenado na Igreja de Lamosa, a 26 de Julho de 1981. Deixou a aldeia aos 10 anos para entrar no seminário e foi missionário nas Filipinas até 2004. Na conversa que se segue, o Padre Alberto recorda a infância vivida em Lamosa, os anos passados na Ásia e analisa a evolução da sua aldeia, aquela que sempre o recebe com grande carinho e orgulho.  

Que recordações guarda da sua infância?

Foi um tempo muito simples, numa vida muito centrada em Lamosa. Até aos 10 anos nunca saí daqui. Quando fui ao estágio a Viseu foi a primeira vez que convivi com gente de fora da terra. Recordo-me de jogar à bola e tenho também muito boas recordações da professora, a Dona Daria. Lembro-me vagamente de ter muito medo de uma das professoras da primeira classe, porque batia nos meninos. Nós tínhamos um grupo muito grande porque fomos muitos a nascer naqueles anos de 1954, 55 e 56. E o grupo estava dividido em duas salas.  

Era bom aluno?

Era médio. Nunca fui bom a matemática. Tanto que quando fiz o 5º ano e me vi livre das ciências até respirei fundo e enveredei por algo que gostava, o que se reflectiu em notas melhores. Eu fugia sempre da matemática. Nunca queria fazer os trabalhos, era sempre obrigado e muitas férias eram passadas a melhorar os conhecimentos a matemática. Como era o mais novo, eram os meus irmãos que me ensinavam. O meu irmão Abel sempre foi muito bom a matemática.

Naquele tempo o meu pai tinha a taberna e lembro-me de uma tarde em que eu tinha como tarefa lavar as pipas. Não as lavei e usei a matemática como desculpa, dizendo que tinha estado a estudar. E acabei por ser castigado. 

E o que recorda da vida na aldeia?

Nunca passei muito tempo nos campos, tenho mais recordações da loja dos meus pais. Sempre gostei muito do comércio. Aliás, acho que se não fosse padre talvez fosse hoje um advogado ou um comerciante. Sempre gostei de estar no balcão e rasgar papéis. E uma vez bateram-me porque rasguei por engano uma nota de 20. Os meus pais tiveram muito trabalho para colar a nota. De resto, fui poucas vezes com outras crianças para os campos com o gado. Os meus pais não gostavam muito que eu fosse, mas eu gostava de ir de vez em quando para os lameiros com outros rapazes. Só tinha medo das lesmas. Lembro-me também das trocas que fazia com os outros rapazes. Como tínhamos a taberna, havia muito doce e marmelada para vender. Eu gosto muito de queijo e trocava marmelada com outros rapazes. Eles não tinham muito acesso à marmelada e eu preferia o queijo.   

E como se dá a entrada no seminário?

O meu irmão Abel já lá estava e eu fui uma vez com os meus pais ao seminário a uma festa para os pais dos alunos. Fiquei logo atraído pela alegria com que os missionários falavam e lidavam uns com os outros, uma alegria que eu não via no pároco daqui, que era o Padre Vieira. Ainda assim, acho que o Padre Vieira foi um homem que marcou positivamente o povo de Lamosa. Podia ter muitos defeitos, mas como pároco foi muito fiel, honesto e generoso, dedicando-se completamente ao povo daqui. Só que tinha métodos de trabalho que podiam ser discutíveis. Lembro-me até de ser seminarista, vir a Lamosa nas férias e as missas estarem marcadas para as 6 da manhã em pleno Inverno. Como era seminarista nem podia pensar em faltar à missa, mas no fim voltava para casa e ia deitar-me novamente. Àquela hora ainda era de noite! 

Com que idade entrou no seminário?

Fui para o seminário aos 10 anos, logo a seguir à quarta classe. O seminário substituía a escola porque naquele tempo não tínhamos muito acesso aos estudos. Também por isso os seminários estavam cheios naquela época. É claro que a maior parte não continuou a estudar para padre. No meu ano, por exemplo, fiquei só eu. Comecei no Seminário das Missões, em Viseu. Dois anos depois fui para o Seminário da Maia e mais tarde para Coimbra. 

Custou-lhe muito deixar a casa dos pais?

Não, até porque o meu irmão já lá estava e talvez isso tivesse ajudado. Olho para trás e não me lembro de ter passado nenhum martírio. Hoje vejo os rapazes a sofrer mais quando lá entram, a telefonar muito para a família.  

E a partir daí como foi o seu percurso?

Eu sou o primeiro dos combonianos que fez todos os exames no ensino público. Antes faziam-se os exames no seminário e depois passámos a sair para fazer os exames. A partir do meu ano, até as aulas passaram a ser frequentadas nos liceus, fora do seminário. Depois de concluído o ensino secundário, estive dois anos em Santarém, para onde vão os seminaristas que têm interesse em tornarem-se mesmo missionários. Ali fazemos uma preparação espiritual com um mestre dos noviços e uma comunidade de missionários mais velhos.

Estive dois anos em Granada a estudar Filosofia e depois prossegui os estudos em Paris, onde fui ordenado diácono, em 1980. No ano seguinte fui ordenado sacerdote em Lamosa pelo D. António Xavier Monteiro, bispo de Lamego. Foi a 26 de Julho de 1981. Quando vim de Paris queria ir logo para as missões, mas pediram-me para ficar por aqui. Então fiquei em Portugal seis anos após a ordenação. O primeiro trabalho que me mandaram fazer foi encerrar um seminário menor no Porto. E comecei nessa altura a trabalhar com adolescentes, num conceito a que chamei “seminário em família”. Ainda cheguei a ir à televisão falar disso. O conceito consistia em deixar os adolescentes viverem no seu ambiente de escola, família e paróquia e éramos nós que íamos lá ter com eles. O meu trabalho era feito sobretudo com as famílias. Para eles havia acampamentos, encontros ao fim-de-semana com música, filmes e actividades que os atraíssem. Mas isto foi há mais de 20 anos, altura em que era mais fácil trabalhar a este nível com os adolescentes. Hoje, os meus colegas que ainda estão a trabalhar com os adolescentes têm mais dificuldades do que eu tinha na altura. É mais desgastante psicológica e até fisicamente. E os jovens têm mais dificuldades em concentrar-se, dispersam-se muito mais, têm uma grande variedade de escolhas pela frente. Antes dávamos uma ordem e geralmente ela era cumprida. Hoje não é sempre assim. Inclusivamente quando se fala em ser missionário, desapareceu aquela mística que havia antigamente, de partir para longe para ajudar os outros. A maior parte dos miúdos dá valor a outro tipo de coisas, como o computador e o telemóvel.  

Que sentimentos recorda das primeiras celebrações que fez pelo facto de estar a fazê-las para pessoas que o conheciam e na sua própria aldeia?

Não me recordo muito bem dos meus sentimentos, mas sei que na altura não estava tão à vontade como estou hoje. Mas não tinha medo nenhum, até me sentia mais confiante.  

E as pessoas da terra sempre tiveram muito orgulho nos “seus padres”…

Ai sim, sem dúvida. Nesse aspecto tenho sido privilegiado. Há um grande orgulho em todos os padres aqui de Lamosa, mas noto um certo carinho especial por mim e pelo padre Aparício, por termos estado fora. Quando regressávamos, o acolhimento era muito carinhoso. Lamosa foi caminhando connosco. Antes, o povo era muito frio, muito recatado no que toca aos seus sentimentos. Não podemos esquecer que este é um povo da montanha. Mas também nesse aspecto a população seguiu um caminho muito positivo e já consegue expressar os seus sentimentos. Além disso, eu não tenho pejo nenhum em pedir para a missão e tenho aqui em Lamosa uma grande gratidão pela ajuda que muitas pessoas simples deram para a construção do seminário nas Filipinas.  

Em família, o facto de haver um padre à mesa torna o ambiente diferente? As crianças lidam consigo de maneira diferente?

Absolutamente nada. Sinto-me muito bem como os meus sobrinhos, tal como me sinto bem com os meus irmãos e cunhadas. Fomos caminhando juntos e temos conversas muito interessantes. Há uma grande confiança entre nós. Eu sou o primeiro a fazer macacadas para as crianças. Tenho um óptimo relacionamento com os meus sobrinhos. Todos me tratam por tu. E para os meus pais sou “o Alberto”, como sempre.  

Não chegou a estar à frente de nenhuma paróquia?

Nunca estive. Depois de ter estado aqui, fui como missionário para as Filipinas, no primeiro grupo de combonianos que foi para lá. Eu fiz as minhas opções sempre a pensar em ir para África ou, quando muito, para a América Latina. Quanto estive a estudar nunca pensei em ir para a Ásia. Naquela altura estava disponível para ir para a missão e andavam à procura de quem aceitasse ir para a Ásia. Resolvi aceitar. Isto foi em 1988.  

Que cenário encontrou nas Filipinas?

Um cenário do Terceiro Mundo. A Natureza é muito bonita e causa um certo impacto no início. Mas ao nível social e económico há uma pobreza imensa, mas com gente que quer lutar pela vida. Há muita injustiça e corrupção. Há uma convivência não violenta entre uma grande maioria pobre e uma minoria rica. Mas há muita violência estrutural, com desigualdades provocadas pelo sistema colonialista que ali imperou e que se vai mantendo com a opressão do Estado e dos militares. Passados sete anos, eu deveria vir embora para trabalhar em Londres com os estudantes de Teologia. Mas depois passei a ser o coordenador da nossa presença na Ásia. Já estávamos em Macau e depois abri um seminário em Taiwan. Mas eu continuei a residir em Manila. Estive lá de 1988 a 2004. 

Num quotidiano de injustiça e desigualdades, é difícil manter a fé do povo inabalável? As pessoas não sentem que também Deus está a ser injusto com elas?

Essa é uma maneira muito Ocidental de ver as coisas. Quando se vive em grande pobreza e não há nada onde se agarrar, as pessoas refugiam-se em Deus. Eles sabem por experiência própria que não podem esperar nada dos Homens, por isso agarram-se a Deus para os ajudar. E é aqui que a Igreja tem de ter cuidado para não se tornar no ópio do povo. E a Igreja tem actuado nas bases com um trabalho notável de consciencialização para que também os pobres se sintam dignos e sejam capazes de se organizar melhor no seu dia-a-dia. 

E essa postura da população tem vindo a modificar-se com as novas gerações?

É inevitável porque a globalização chega a todo o lado. O povo asiático é muito voltado para o Sagrado, mas a pouco e pouco isso vai-se diluindo. O valor da família está mais fraco porque é preciso deixar a família para procurar trabalho nas grandes cidades. A prostituição tem também um peso muito forte nas Filipinas. Há por lá problemas muito graves.  

A sua saúde nunca foi afectada nesta longa estadia nas Filipinas?

Nada. Fui realmente abençoado. Eu gosto muito de arroz e de peixe e sempre me dei bem com a comida. O único problema de saúde que tive foi de cataratas, mas certamente também o teria tido se vivesse cá. Mas reconheço que o clima é difícil para nós. Na maioria dos dias há mais de 90% de humidade e Manila é uma cidade muito poluída. Felizmente deixei de fumar quando fui para lá senão os meus pulmões não estariam em bom estado. Mas provavelmente ainda vou ressentir-me mais tarde.  

Regressou logo para o Porto?

Sim, estou na Maia.  

E hoje como vê Lamosa?

Lamosa está um pouco mais aberta e é um local onde se vive melhor. Está mais velha e mais desertificada. Dá-me pena. Quando venho cá no Inverno, entro e saio sem ver vivalma. Há mais bem-estar, mas os idosos ainda estão um pouco parados no tempo. Procuram mais qualidade de vida, mas nem sempre a sabem aproveitar. O lar foi uma obra muito positiva, permitindo que possam viver melhor a sua velhice sem abandonar a sua terra. Estão no mesmo contexto social, com pessoas conhecidas, a mesma paisagem. A mudança é mais fácil. Mas continua a ser uma Lamosa um pouco fechada. E é gente muito religiosa e crente. 

O que lhe vem à ideia quando vê a igreja cheia como acontece na Festa de Nossa Senhora do Emigrante?

Penso que somos todos emigrantes e filhos de emigrantes. Houve um período de maior desertificação, em que muitos iam para fora e sentiam o fogo de vir mostrar o que tinham conseguido. Agora vemos esta geração de filhos de emigrantes que começa a apreciar as coisas típicas, que não ostenta o que tem e que gosta de cá vir genuinamente.  

Quando regressa a Lamosa, que cenários gosta de rever?

Gosto muito de olhar para os pinhais em redor da aldeia. Gosto também de ver toda a zona de regadio. E os penedos. E a Demandinho é sempre a Demandinho. 

 

 

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