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“Lamosa
está mais aberta”
Nasceu
a 1 de Agosto de 1955, em Lamosa, e é o mais novo de quatro
irmãos. Alberto Silva é conhecido entre todos os lamosenses
como o Padre Alberto e foi o primeiro sacerdote a ser ordenado
na Igreja de Lamosa, a 26 de Julho de 1981. Deixou a aldeia
aos 10 anos para entrar no seminário e foi missionário nas
Filipinas até 2004. Na conversa que se segue, o Padre Alberto
recorda a infância vivida em Lamosa, os anos passados na Ásia
e analisa a evolução da sua aldeia, aquela que sempre o
recebe com grande carinho e orgulho.
Que
recordações guarda da sua infância?
Foi
um tempo muito simples, numa vida muito centrada em Lamosa. Até
aos 10 anos nunca saí daqui. Quando fui ao estágio a Viseu
foi a primeira vez que convivi com gente de fora da terra.
Recordo-me de jogar à bola e tenho também muito boas recordações
da professora, a Dona Daria. Lembro-me vagamente de ter muito
medo de uma das professoras da primeira classe, porque batia
nos meninos. Nós tínhamos um grupo muito grande porque fomos
muitos a nascer naqueles anos de 1954, 55 e 56. E o grupo
estava dividido em duas salas.
Era
bom aluno?
Era
médio. Nunca fui bom a matemática. Tanto que quando fiz o 5º
ano e me vi livre das ciências até respirei fundo e
enveredei por algo que gostava, o que se reflectiu em notas
melhores. Eu fugia sempre da matemática. Nunca queria fazer
os trabalhos, era sempre obrigado e muitas férias eram
passadas a melhorar os conhecimentos a matemática. Como era o
mais novo, eram os meus irmãos que me ensinavam. O meu irmão
Abel sempre foi muito bom a matemática.
Naquele
tempo o meu pai tinha a taberna e lembro-me de uma tarde em
que eu tinha como tarefa lavar as pipas. Não as lavei e usei
a matemática como desculpa, dizendo que tinha estado a
estudar. E acabei por ser castigado.
E
o que recorda da vida na aldeia?
Nunca
passei muito tempo nos campos, tenho mais recordações da
loja dos meus pais. Sempre gostei muito do comércio. Aliás,
acho que se não fosse padre talvez fosse hoje um advogado ou
um comerciante. Sempre gostei de estar no balcão e rasgar papéis.
E uma vez bateram-me porque rasguei por engano uma nota de 20.
Os meus pais tiveram muito trabalho para colar a nota. De
resto, fui poucas vezes com outras crianças para os campos
com o gado. Os meus pais não gostavam muito que eu fosse, mas
eu gostava de ir de vez em quando para os lameiros com outros
rapazes. Só tinha medo das lesmas. Lembro-me também das
trocas que fazia com os outros rapazes. Como tínhamos a
taberna, havia muito doce e marmelada para vender. Eu gosto
muito de queijo e trocava marmelada com outros rapazes. Eles não
tinham muito acesso à marmelada e eu preferia o queijo.
E
como se dá a entrada no seminário?
O
meu irmão Abel já lá estava e eu fui uma vez com os meus
pais ao seminário a uma festa para os pais dos alunos. Fiquei
logo atraído pela alegria com que os missionários falavam e
lidavam uns com os outros, uma alegria que eu não via no pároco
daqui, que era o Padre Vieira. Ainda assim, acho que o Padre
Vieira foi um homem que marcou positivamente o povo de Lamosa.
Podia ter muitos defeitos, mas como pároco foi muito fiel,
honesto e generoso, dedicando-se completamente ao povo daqui.
Só que tinha métodos de trabalho que podiam ser discutíveis.
Lembro-me até de ser seminarista, vir a Lamosa nas férias e
as missas estarem marcadas para as 6 da manhã em pleno
Inverno. Como era seminarista nem podia pensar em faltar à
missa, mas no fim voltava para casa e ia deitar-me novamente.
Àquela hora ainda era de noite!
Com
que idade entrou no seminário?
Fui
para o seminário aos 10 anos, logo a seguir à quarta classe.
O seminário substituía a escola porque naquele tempo não tínhamos
muito acesso aos estudos. Também por isso os seminários
estavam cheios naquela época. É claro que a maior parte não
continuou a estudar para padre. No meu ano, por exemplo,
fiquei só eu. Comecei no Seminário das Missões, em Viseu.
Dois anos depois fui para o Seminário da Maia e mais tarde
para Coimbra.
Custou-lhe
muito deixar a casa dos pais?
Não,
até porque o meu irmão já lá estava e talvez isso tivesse
ajudado. Olho para trás e não me lembro de ter passado
nenhum martírio. Hoje vejo os rapazes a sofrer mais quando lá
entram, a telefonar muito para a família.
E
a partir daí como foi o seu percurso?
Eu
sou o primeiro dos combonianos que fez todos os exames no
ensino público. Antes faziam-se os exames no seminário e
depois passámos a sair para fazer os exames. A partir do meu
ano, até as aulas passaram a ser frequentadas nos liceus,
fora do seminário. Depois de concluído o ensino secundário,
estive dois anos em Santarém, para onde vão os seminaristas
que têm interesse em tornarem-se mesmo missionários. Ali
fazemos uma preparação espiritual com um mestre dos noviços
e uma comunidade de missionários mais velhos.
Estive
dois anos em Granada a estudar Filosofia e depois prossegui os
estudos em Paris, onde fui ordenado diácono, em 1980. No ano
seguinte fui ordenado sacerdote em Lamosa pelo D. António
Xavier Monteiro, bispo de Lamego. Foi a 26 de Julho de 1981.
Quando vim de Paris queria ir logo para as missões, mas
pediram-me para ficar por aqui. Então fiquei em Portugal seis
anos após a ordenação. O primeiro trabalho que me mandaram
fazer foi encerrar um seminário menor no Porto. E comecei
nessa altura a trabalhar com adolescentes, num conceito a que
chamei “seminário em família”. Ainda cheguei a ir à
televisão falar disso. O conceito consistia em deixar os
adolescentes viverem no seu ambiente de escola, família e paróquia
e éramos nós que íamos lá ter com eles. O meu trabalho era
feito sobretudo com as famílias. Para eles havia
acampamentos, encontros ao fim-de-semana com música, filmes e
actividades que os atraíssem. Mas isto foi há mais de 20
anos, altura em que era mais fácil trabalhar a este nível
com os adolescentes. Hoje, os meus colegas que ainda estão a
trabalhar com os adolescentes têm mais dificuldades do que eu
tinha na altura. É mais desgastante psicológica e até
fisicamente. E os jovens têm mais dificuldades em
concentrar-se, dispersam-se muito mais, têm uma grande
variedade de escolhas pela frente. Antes dávamos uma ordem e
geralmente ela era cumprida. Hoje não é sempre assim.
Inclusivamente quando se fala em ser missionário, desapareceu
aquela mística que havia antigamente, de partir para longe
para ajudar os outros. A maior parte dos miúdos dá valor a
outro tipo de coisas, como o computador e o telemóvel.
Que
sentimentos recorda das primeiras celebrações que fez pelo
facto de estar a fazê-las para pessoas que o conheciam e na
sua própria aldeia?
Não
me recordo muito bem dos meus sentimentos, mas sei que na
altura não estava tão à vontade como estou hoje. Mas não
tinha medo nenhum, até me sentia mais confiante.
E
as pessoas da terra sempre tiveram muito orgulho nos “seus
padres”…
Ai
sim, sem dúvida. Nesse aspecto tenho sido privilegiado. Há
um grande orgulho em todos os padres aqui de Lamosa, mas noto
um certo carinho especial por mim e pelo padre Aparício, por
termos estado fora. Quando regressávamos, o acolhimento era
muito carinhoso. Lamosa foi caminhando connosco. Antes, o povo
era muito frio, muito recatado no que toca aos seus
sentimentos. Não podemos esquecer que este é um povo da
montanha. Mas também nesse aspecto a população seguiu um
caminho muito positivo e já consegue expressar os seus
sentimentos. Além disso, eu não tenho pejo nenhum em pedir
para a missão e tenho aqui em Lamosa uma grande gratidão
pela ajuda que muitas pessoas simples deram para a construção
do seminário nas Filipinas.
Em
família, o facto de haver um padre à mesa torna o ambiente
diferente? As crianças lidam consigo de maneira diferente?
Absolutamente
nada. Sinto-me muito bem como os meus sobrinhos, tal como me
sinto bem com os meus irmãos e cunhadas. Fomos caminhando
juntos e temos conversas muito interessantes. Há uma grande
confiança entre nós. Eu sou o primeiro a fazer macacadas
para as crianças. Tenho um óptimo relacionamento com os meus
sobrinhos. Todos me tratam por tu. E para os meus pais sou
“o Alberto”, como sempre.
Não
chegou a estar à frente de nenhuma paróquia?
Nunca
estive. Depois de ter estado aqui, fui como missionário para
as Filipinas, no primeiro grupo de combonianos que foi para lá.
Eu fiz as minhas opções sempre a pensar em ir para África
ou, quando muito, para a América Latina. Quanto estive a
estudar nunca pensei em ir para a Ásia. Naquela altura estava
disponível para ir para a missão e andavam à procura de
quem aceitasse ir para a Ásia. Resolvi aceitar. Isto foi em
1988.
Que
cenário encontrou nas Filipinas?
Um
cenário do Terceiro Mundo. A Natureza é muito bonita e causa
um certo impacto no início. Mas ao nível social e económico
há uma pobreza imensa, mas com gente que quer lutar pela
vida. Há muita injustiça e corrupção. Há uma convivência
não violenta entre uma grande maioria pobre e uma minoria
rica. Mas há muita violência estrutural, com desigualdades
provocadas pelo sistema colonialista que ali imperou e que se
vai mantendo com a opressão do Estado e dos militares.
Passados sete anos, eu deveria vir embora para trabalhar em
Londres com os estudantes de Teologia. Mas depois passei a ser
o coordenador da nossa presença na Ásia. Já estávamos em
Macau e depois abri um seminário em Taiwan. Mas eu continuei
a residir em Manila. Estive lá de 1988 a 2004.
Num
quotidiano de injustiça e desigualdades, é difícil manter a
fé do povo inabalável? As pessoas não sentem que também
Deus está a ser injusto com elas?
Essa
é uma maneira muito Ocidental de ver as coisas. Quando se
vive em grande pobreza e não há nada onde se agarrar, as
pessoas refugiam-se em Deus. Eles sabem por experiência própria
que não podem esperar nada dos Homens, por isso agarram-se a
Deus para os ajudar. E é aqui que a Igreja tem de ter cuidado
para não se tornar no ópio do povo. E a Igreja tem actuado
nas bases com um trabalho notável de consciencialização
para que também os pobres se sintam dignos e sejam capazes de
se organizar melhor no seu dia-a-dia.
E
essa postura da população tem vindo a modificar-se com as
novas gerações?
É
inevitável porque a globalização chega a todo o lado. O
povo asiático é muito voltado para o Sagrado, mas a pouco e
pouco isso vai-se diluindo. O valor da família está mais
fraco porque é preciso deixar a família para procurar
trabalho nas grandes cidades. A prostituição tem também um
peso muito forte nas Filipinas. Há por lá problemas muito
graves.
A
sua saúde nunca foi afectada nesta longa estadia nas
Filipinas?
Nada.
Fui realmente abençoado. Eu gosto muito de arroz e de peixe e
sempre me dei bem com a comida. O único problema de saúde
que tive foi de cataratas, mas certamente também o teria tido
se vivesse cá. Mas reconheço que o clima é difícil para nós.
Na maioria dos dias há mais de 90% de humidade e Manila é
uma cidade muito poluída. Felizmente deixei de fumar quando
fui para lá senão os meus pulmões não estariam em bom
estado. Mas provavelmente ainda vou ressentir-me mais tarde.
Regressou
logo para o Porto?
Sim,
estou na Maia.
E
hoje como vê Lamosa?
Lamosa
está um pouco mais aberta e é um local onde se vive melhor.
Está mais velha e mais desertificada. Dá-me pena. Quando
venho cá no Inverno, entro e saio sem ver vivalma. Há mais
bem-estar, mas os idosos ainda estão um pouco parados no
tempo. Procuram mais qualidade de vida, mas nem sempre a sabem
aproveitar. O lar foi uma obra muito positiva, permitindo que
possam viver melhor a sua velhice sem abandonar a sua terra.
Estão no mesmo contexto social, com pessoas conhecidas, a
mesma paisagem. A mudança é mais fácil. Mas continua a ser
uma Lamosa um pouco fechada. E é gente muito religiosa e
crente.
O
que lhe vem à ideia quando vê a igreja cheia como acontece
na Festa de Nossa Senhora do Emigrante?
Penso
que somos todos emigrantes e filhos de emigrantes. Houve um
período de maior desertificação, em que muitos iam para
fora e sentiam o fogo de vir mostrar o que tinham conseguido.
Agora vemos esta geração de filhos de emigrantes que começa
a apreciar as coisas típicas, que não ostenta o que tem e
que gosta de cá vir genuinamente.
Quando
regressa a Lamosa, que cenários gosta de rever?
Gosto
muito de olhar para os pinhais em redor da aldeia. Gosto também
de ver toda a zona de regadio. E os penedos. E a Demandinho é
sempre a Demandinho.
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