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N:
16
de Agosto de 1923
Quem conheceu Lamosa nos anos 70, 80 e 90 não terá certamente esquecido a loja da Tia Judite, com as suas três portas voltadas para a Rua da Preguiça. Começou por ser uma pequena loja, onde se vendiam panos para a confecção de roupa, e foi mais tarde ampliada para acolher uma grande variedade de têxteis para o lar, numa época em que o pronto-a-vestir começou a ganhar espaço aos alfaiates.
Mas a máquina do Tio Abraão, marido da Tia Judite e alfaiate de profissão, conseguiu preservar o seu espaço no interior da loja, enquanto os homens da aldeia continuava, a preferir o fato à medida.
Judite nasceu a 16 de Agosto de 1923 e casou-se com Abraão Pina em Fevereiro de 1941, quando ela ainda nem tinha 18 anos feitos. Diz que antes até tinha pensado em converter-se à vida religiosa, por influência da Dona Justina, mas nessa altura era ainda muito nova e mais tarde acabou por casar.
Manuel, o primeiro filho, nasceu em 1943 e a Tia Judite estava grávida do segundo filho quando o marido partiu para o Brasil. Quis o destino que o Tio Abraão regressasse à terra três anos depois, no dia do funeral da sua filha Teresa, que sucumbira à doença no segundo ano de vida. “Na altura não tínhamos telefone para o avisar e ele só soube que a menina falecera quando encontrou uma pessoa da terra em Viseu”, recorda a Tia Judite.
Tiveram ainda mais três filhos: Carlos, Abel e Alberto, todos criados em tempos de duras jornadas, em que Judite e Abraão se levantavam bem cedo para vender os têxteis nas feiras de Moimenta da Beira e Vila Nova de Paiva. Acumulavam a venda na feira com a loja na Rua da Preguiça, no rés-do-chão da casa da família. “Abastecíamo-nos em Viseu e trazíamos os fardos na camioneta. Para as feiras levávamos uma carroça com a mercadoria”, conta a Tia Judite.
Além da loja, também o telefone público e os correios da aldeia estavam por conta do casal de comerciantes. “Antes, o correio e o telefone tinham de estar obrigatoriamente juntos e nós pedimos para ter aqui o telefone. Agora já não temos o correio, mas o telefone continua aqui”, confirma a Tia Judite. E muitos se lembrarão ainda de quando o Tio Abraão ia às casas da aldeia anunciar que algum familiar havia telefonado…
A loja fechou e a casa da família conquistou o seu espaço, pronta para receber filhos, noras, netos e bisnetos. Aos quatro filhos juntam-se já quatro bisnetos. Judite e Abraão visitam-nos uma vez por ano, no Natal. “Já me custa muito viajar de carro, mas há sempre um filho que nos vem cá buscar e pelo menos no Natal vamos visitá-los a Lisboa”.
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